Dar o que tenho, não o que a outra pessoa precisa

Durante muito tempo eu dava conforme o que estava à minha frente.
Se alguém precisava de muito, eu dava muito. Se alguém estava mal, eu ficava. Se alguém pedia, eu respondia. A medida nunca era minha, era sempre da outra pessoa.
E parecia generosidade.
O que acontecia a seguir
Acontecia que eu ficava vazia.
Não de uma vez. Aos bocados, ao longo de dias e de semanas, sem eu dar bem por isso. Até chegar a um ponto em que já não tinha nada para dar a ninguém, nem a mim.
E a seguir vinha a parte menos bonita: a frustração. Aquela sensação de dar tanto e não receber nada. Que nunca é sobre a outra pessoa, mas que se despeja nela à mesma.
A medida tem de ser minha
Hoje faço a pergunta ao contrário.
Antes perguntava: de quanto é que esta pessoa precisa?
Agora pergunto: de quanto é que eu disponho?
Não é a mesma coisa e não dá o mesmo resultado. A primeira pergunta não tem fim, porque a necessidade da outra pessoa pode ser infinita e não é responsabilidade minha preenchê-la toda. A segunda tem um limite, e o limite sou eu.
Isto não é dar menos
Foi o que eu achei durante muito tempo, e por isso resisti.
Se eu der conforme o que tenho, e não conforme o que a pessoa precisa, estou a dar menos. Estou a ser egoísta. Estou a abandonar alguém a meio.
Não é verdade.
O que eu dou a partir de mim própria, com medida, chega inteiro. O que eu dou a partir do vazio chega misturado com cansaço, com ressentimento e com a conta que, mais tarde, vou querer cobrar.
Há uma diferença enorme entre doar a partir da inteireza e doar a partir do vazio.
E a outra pessoa?
Pode ficar desapontada. Pode esperar mais.
E está tudo bem.
Posso ter empatia por alguém e não fazer nada. Posso saber que seria capaz de ajudar e escolher não ajudar. Posso fazer uma coisa duas ou três vezes, a pessoa criar a expectativa de uma quarta e de uma quinta, e eu não fazer.
Isso não me torna má pessoa. Torna-me uma pessoa com limites, que é condição para continuar a estar disponível durante anos em vez de durante umas semanas.
O que mudou
Dou menos vezes e dou melhor.
Estou mais presente quando estou, porque não estou a contar os minutos nem a gerir a minha própria exaustão ao mesmo tempo.
E deixei de precisar que me agradeçam, porque já não estou a pagar nada com aquilo que dou.



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