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Largar a vítima, abandonar o salvador, viver o humano

Há um momento inevitável no crescimento interior em que precisamos largar duas posições muito sedutoras: a de vítima e a de salvador.


A vítima espera que algo externo mude para poder avançar. O salvador acredita que tem de carregar os outros para justificar a própria existência. Ambas mantêm a vida em suspenso.


Isto torna-se particularmente visível nas relações mais profundas, sobretudo com os pais. Existe uma fantasia silenciosa de que, se o outro mudar, amadurecer ou finalmente “perceber”, então algo em nós poderá descansar. Mas essa espera prolonga a prisão.


Libertar não é cortar laços nem apagar a história. É aceitar plenamente o que foi. Aceitar limites, falhas e ausências, não para desculpar comportamentos abusivos, mas para deixar de gastar energia a tentar reescrever o passado. Só a aceitação radical permite verdadeira autonomia.


Outra armadilha comum é o ego espiritual, a ideia de que já ultrapassámos a dimensão humana. Que já não precisamos de sentir raiva, dor, apego ou frustração. Mas se viemos viver uma experiência humana, não faz sentido querer saltar essa parte.


O divino sem humanidade vira fuga. A integração pede vulnerabilidade, contacto, erro, relação. Pede presença no corpo e na vida real.


Aos poucos, este caminho leva-nos para fora da lógica do certo e do errado. As pessoas que nos incomodam, os conflitos que nos desafiam, as situações que preferíamos evitar, acabam por trazer clareza. Nem tudo precisa de julgamento; muita coisa só precisa de ser vista.


Talvez o sentimento de união com o todo não venha de encontrar algo fora, mas de deixar de excluir partes de nós.

 
 
 

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