Nada podia ter sido diferente

Se pudesse ter sido diferente, já tinha sido.
Demorei anos a perceber isto e mudou-me a relação com o passado inteiro.
Estamos todos a fazer o nosso melhor
Às vezes o nosso melhor é péssimo. Às vezes é ótimo. Mas é sempre o nosso melhor.
Seja a tentar sobreviver, seja a tentar proteger o ego a todo o custo, seja a tentar o que for. Em cada momento, estamos a fazer o melhor que conseguimos naquele momento.
Isso inclui aquelas decisões de que hoje me arrependo.
A versão que decidiu
A pessoa que tomou aquela decisão não era eu como sou hoje.
Era a minha versão daquela altura, com tudo o que ela era. E não era só o que ela sabia: era tudo aquilo que ela era. Os traumas, a história de vida, o ADN, as emoções, as vontades, tudo.
Com tudo isso em cima da mesa, ela tomou a melhor decisão que conseguiu.
Por isso não podia ter sido diferente. Se tivesse sido diferente, não era eu. Era outra versão qualquer, mas não aquela que estava ali a viver aquilo.
O que a culpa faz
E é aqui que isto deixa de ser consolo e passa a ser prático.
O tempo que se passa no arrependimento e na culpa é mais do mesmo. É desculpa para não avançar. É ficar preso a uma versão antiga de nós.
É autossabotagem, e quanto mais tempo passa, maior a bola de neve fica.
Ficar em lealdade com coisas que já aconteceram, com versões antigas minhas ou com pessoas que se foram embora, só me mantém no mesmo sítio. E o buraco vai ficando mais fundo.
Para trás, só apaziguar
A única coisa sobre a qual posso ter impacto é para a frente.
Para trás posso apaziguar. Não posso mudar.
Para a frente posso mudar.
E a forma de sair disto é escolher-me todos os dias um bocadinho, sabendo que a minha cabeça às vezes sabe o que seria melhor e que nem sempre vai conseguir agir em conformidade.
Um bocadinho por dia. Há dias que vão para trás. E há dias que vão para a frente.



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