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Nem tudo o que sinto é meu

30 de set.
2 min de leitura

Durante muito tempo trabalhei com uma ideia que me parecia sólida: o que a outra pessoa faz é dela, o que eu sinto é meu.


É uma boa ideia. Tira-me da posição de vítima e devolve-me responsabilidade.


Mas tem um reverso que só percebi há pouco tempo. Se tudo o que sinto é meu, então tudo o que sinto tem de ser analisado, compreendido, resolvido por mim. E há coisas que eu andei anos a tentar resolver que, muito simplesmente, não eram minhas.


Sou permeável


Isto é uma característica minha e é das mais antigas que tenho. Só na semana passada é que lhe caiu a ficha.


Se estou a ler um livro de que gosto, mergulho de tal maneira que passo a ser a personagem. Se ela está irritada, ando irritada. Se ela está apaixonada, ando apaixonada. E não é só no momento em que estou a ler: é durante todo o tempo que o livro durar, seja um dia ou duas semanas.


Com pessoas é igual. Se estou rodeada de gente agitada, acelerada, em stress, lá vou eu atrás. Se estou com pessoas tranquilas, tenho tendência a acalmar.


Não é linear nem é a cem por cento. Há coisas que estão mesmo a acontecer e que são minhas. Mas a influência do que está à volta é muito maior do que eu assumia.


O que isto implica


Implica que o ambiente conta. Muito.


E implica que aquilo que consumo conta também. Não só a comida: os livros, os filmes, as séries, as redes sociais. Tudo aquilo a que dou entrada acaba por se refletir em mim durante algum tempo.


Isto não é bom nem mau. É uma característica.


O outro lado dela é que tenho mais empatia, estou mais sintonizada, percebo coisas que de outra forma me passariam ao lado. A mesma permeabilidade que me deixa oscilar é a que me deixa perceber.


Onde estava o erro


O erro não era achar que sou responsável pelo que sinto.


O erro era transformar isso em controlo.


Se é tudo meu, então eu posso tratar disto, posso resolver, posso analisar até perceber. E aquilo é reconfortante, porque dá a sensação de que há sempre alguma coisa a fazer.


Só que não há. Quando o que estou a sentir não começou em mim, analisar não leva a lado nenhum. Fico às voltas à procura da origem de uma coisa que não tem origem cá dentro.


Poder não é o mesmo que controlo


É esta a distinção que estou agora a fazer, e mudou-me bastante.


Não controlo ser permeável. Isso é como sou.


Mas tenho poder sobre a minha energia. Posso reparar no que está a acontecer, posso limpar, posso devolver o que não é meu, posso escolher ambientes e escolher o que consumo.


E posso, sobretudo, deixar de me identificar imediatamente com tudo o que sinto.


A pergunta que mudou


Antes, quando sentia alguma coisa incómoda, a pergunta era: o que é que isto quer dizer sobre mim?


Agora, a primeira pergunta é outra: isto é meu?


Às vezes é. E aí vale a pena olhar com atenção.


E às vezes não é. Simplesmente não é.

 
 
 

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