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Preocupar-se não é amar

4 de out.
2 min de leitura

Aprendi, em atos e em palavras, que quem ama se preocupa.


Que gostar de alguém é ficar aflito por essa pessoa. É antecipar o que pode correr mal. É mostrar a aflição, para que se veja bem que existe.


E aprendi também o reverso, que é a parte perigosa: se não mostro preocupação, não estou a preocupar-me. E se não estou preocupada, não estou a amar.


Isto é um novelo. Demorei anos a começar a desmanchá-lo.


Cuidado e preocupação não são a mesma coisa


Cuidado é estar atento a alguém. Reparar, perguntar, estar disponível.


Preocupação é outra coisa. É estar aflito com antecedência por uma coisa que ainda não aconteceu, e muitas vezes é acompanhada de uma certa encenação: tem de se ver que estou preocupada, senão não conta.


Quando alguém se preocupa comigo dessa forma, sinto-o fisicamente. É energia a vir na minha direção, e não é uma energia leve. Incomoda-me.


Mas se ninguém se preocupa, acontece-me uma coisa curiosa: vou para o sítio de achar que não gostam de mim. Porque foi isso que aprendi que era suposto.


E depois repito o padrão. Sobretudo com as pessoas mais próximas, que foi precisamente onde o aprendi.


O que a preocupação está mesmo a dizer


Demorei a chegar aqui, e ainda estou no início desta conversa comigo própria.


Preocupar-me com alguém não significa que o amo mais. Significa que não confio.


Não confio nessa pessoa, ou não confio em mim, ou não confio na vida. A preocupação parece cuidado mas, por baixo, é uma tentativa de controlo: se eu antecipar todos os cenários maus, talvez consiga evitá-los.


Não consigo. Nunca ninguém conseguiu. Só fico eu cansada e a outra pessoa com o peso da minha aflição em cima.


Há outra forma, e eu estou a aprendê-la


Tenho tido à minha frente exemplos de pessoas que fazem isto de outra maneira. Pessoas que confiam, que não antecipam, que não entram em pânico.


Durante muito tempo li isso como desinteresse. Como falta de amor.


Estava enganada. Essas pessoas confiam muito mais do que eu, e é isso que lhes permite estar presentes sem estar aflitas.


Estar atenta com curiosidade, em vez de com preocupação. Querer conhecer, querer perceber como é que a coisa funciona, em vez de querer controlar o que possa correr mal.


É radicalmente mais leve. E, pelo que estou a ver, é radicalmente mais amoroso.


A parte que ainda não sei fazer


Há uma coisa que percebi pelo caminho: muitas vezes não conto coisas a ninguém, por antecipar que vem aí a energia da preocupação.


Não é que eu não queira partilhar. É que sinto aquilo tudo, e se sinto já entrou em mim.


Por isso a pergunta que estou agora a aprender a responder é esta: como é que eu sinto sem deixar entrar?


Ainda não sei. Mas estou entusiasmada com isto, porque é daquelas aprendizagens que mudam uma vida inteira.


O que fica


Uma parte de mim ainda protesta. Diz que se eu for demasiado descontraída é porque não me importo o suficiente.


Mas a outra parte já sabe que não é assim.


Amar não é preocupar-se. Amar é confiar.

 
 
 

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