Sentir sem deixar entrar

Há uma diferença entre sentir uma coisa e ter essa coisa dentro de mim.
Durante muito tempo, para mim, era a mesma coisa. Se eu sentia, é porque já tinha entrado.
Onde estou agora
Ainda não sei fazer isto. É recente e estou a aprender.
O primeiro passo já dei: reconhecer que nem tudo o que sinto é meu. Isso mudou muita coisa, porque deixei de procurar em mim a origem de coisas que não começaram cá.
O segundo passo é conseguir limpar depois. Percebo que me misturei, reconheço que aquilo não é meu, e devolvo.
O terceiro ainda não sei fazer. É não misturar de início.
Não quer dizer que vá conseguir sempre. Mas neste momento acontece quase sempre o contrário: entro, misturo-me, e só depois percebo.
O que seria conseguir
Estar com um grupo de pessoas aceleradas e não acelerar. Ou acelerar um bocadinho e conseguir sair dali, em vez de ficar.
Mergulhar num livro e, quando fechar o livro, sair de dentro dele.
Sentir tudo na mesma, o que for preciso, sem que aquilo entre.
Não é deixar de sentir. É a informação chegar sem se instalar.
A parte que ninguém diz
Há outra camada disto, e é a que mais me pesa.
Quando entro, quando sinto o que a outra pessoa está a sentir, aparece imediatamente a ideia de que tenho de fazer alguma coisa. Sustentar. Apoiar. Resolver. Ficar ali.
Como se ter empatia por alguém criasse automaticamente uma obrigação.
E isto tem uma consequência que demorei a ver: faz com que eu me afaste. Não aprofundo certas relações, isolo-me mais, dou trinta passos atrás, para evitar que aquilo aconteça.
Ou seja, a coisa que parece excesso de empatia acaba a funcionar como distância.
O que estou a desmontar
Racionalmente já sei isto. Integrado ainda não está.
Posso ter empatia por alguém e não fazer nada.
Posso saber que sou capaz de ajudar e escolher não ajudar.
Posso desapontar uma pessoa. As pessoas podem ficar desapontadas e isso não me destrói nem a elas.
Posso fazer uma coisa duas ou três vezes, a pessoa criar a expectativa de que vou fazer a quarta e a quinta, e eu não fazer.
Nada disto está confortável ainda. Mas está mais perto.
Sem consciência não havia hipótese
O que me impressiona nisto tudo é que estava à minha frente há anos e eu não via.
E percebo porquê: por muitas limpezas que se façam, se não se souber onde está a fuga, está-se a tapar às cegas.
Foi por isso que nada disto resolvia. Não era falta de prática. Era não saber onde era o buraco.
E se ficar assim, também está bem
Uma coisa que noto é que não há luta nenhuma dentro de mim sobre isto.
Não ando a desejar ser diferente. Se aprender, ótimo. Se demorar, também.
E se for assim para sempre, está bem na mesma. Com a diferença de que agora sei.



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