Trazer para dentro o que insistimos em procurar fora
- Filipa Lele
- 29 de mar.
- 1 min de leitura

É curioso como tendemos a colocar fora de nós aquilo que mais desejamos: amor, fé, validação, pertença, sentido. Como se essas coisas existissem algures lá fora e nós tivéssemos de as conquistar, merecer ou esperar que alguém no-las dê.
Essa procura externa assume muitas formas. Pode ser a expectativa de que alguém mude. Pode ser a esperança de que, quando certas condições se alinharem, finalmente nos sentiremos inteiros. Pode até ser uma espiritualidade vivida como algo distante, separado da experiência quotidiana.
Mas e se aquilo que vemos fora for apenas um espelho?
Tenho reparado nisso em situações banais, como no trânsito. A irritação surge rapidamente: os outros são irresponsáveis, agressivos, lentos, inconscientes. Até ao momento em que me apercebo de que todas essas atitudes vivem também em mim. Em dias diferentes. Em estados diferentes. Em contextos diferentes.
A pessoa apressada, a pessoa distraída, a pessoa agressiva, a pessoa contemplativa, todas coexistem dentro de nós. O mundo não está a fazer-nos coisas; está a mostrar-nos partes nossas que ainda não foram integradas.
Trazer para dentro o que está fora é um exercício constante. Mas torna-se quase impossível enquanto permanecemos presos à identidade de vítima. A vítima vive numa lógica de exterioridade: algo acontece a mim, alguém faz algo contra mim. Enquanto essa narrativa domina, tudo continua fora.
Integrar é assumir responsabilidade sem culpa. É reconhecer: isto também vive em mim. E, a partir daí, algo começa a alinhar-se.



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