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Abrir-se com Discernimento: Entre a Vulnerabilidade e a Proteção

Tenho, desde que me lembro, muita dificuldade em abrir-me verdadeiramente com os outros. Principalmente sobre as coisas mais fundas, as que doem mais, as que marcaram mais.


No geral, sempre me foi difícil falar sobre mim.


Por vários motivos.


Desde achar que posso estar a incomodar ou a aborrecer o outro.

Que talvez não seja assim tão importante.

Que estou a exagerar ou a ser dramática.


E depois existe também a dificuldade prática.

Como começar uma conversa dessas?

Como entrar num lugar vulnerável sem sentir que estou a invadir o espaço do outro?


Mas existe ainda uma outra camada que sinto que foi sendo construída ao longo do tempo.


Uma programação de que, ao partilhar algo antes de acontecer, a energia dos outros pode interferir. Como se contar um sonho, um plano ou uma vontade pudesse abrir espaço para que aquilo deixasse de acontecer.


Então muitas vezes preferi proteger em silêncio.


Guardar para mim.


Não contar antes do tempo.


Como forma de preservar aquilo que era importante para mim.


E embora hoje esteja melhor, ainda sinto essa programação viva em algumas partes minhas.


Mas a vida trouxe-me também algumas amizades muito especiais. Pessoas com quem comecei finalmente a sentir outra coisa.


Pessoas com quem posso partilhar algo bonito e sentir genuína alegria do outro lado.

Sem inveja.

Sem ressentimento.

Sem competição.


E também pessoas com quem posso partilhar algo difícil e sentir apoio, presença, empatia, colo.


Sem pena.


E foi isso que me fez perceber verdadeiramente a diferença entre pena e compaixão.


Conceptualmente eu já sabia que eram diferentes.

Mas ainda não tinha sentido essa diferença de forma tão clara dentro de mim.


Percebi-a através do espelho do outro.


Porque nestas amizades existe compaixão. Existe empatia profunda pela dor, pelo momento, pela vulnerabilidade. Existe vontade de apoiar, de estar presente, de cuidar.


Mas não existe aquele olhar de “coitadinha”.


E isso muda tudo.


Porque a pena, no fundo, diminui o outro.

Coloca-o num lugar pequeno. Frágil. Inferior.


Enquanto a compaixão vê a dor sem retirar dignidade.


E depois comecei também a perceber outra coisa.


Quando sinto inveja, pena, ressentimento ou qualquer outra emoção vinda do outro lado, isso nem sempre tem realmente a ver comigo ou com aquilo que estou a partilhar.


Tem a ver com aquilo que aquela pessoa está a viver dentro dela.


Porque há pessoas que recebem exatamente a mesma partilha com alegria genuína.

E outras não.


Então isso mostra-me que o sentimento nasce muito mais do espaço interno de quem ouve do que propriamente daquilo que está a ser dito.


E curiosamente isso também me trouxe mais compaixão.


Porque consigo perceber que muitas vezes alguém só reage com inveja, pena ou ressentimento porque está em dor.


E eu posso ter empatia por essa dor sem precisar de me abandonar para acolhê-la.


Posso compreender sem precisar de me expor constantemente a espaços que me drenam.


Posso escolher onde me abro.


Posso escolher com quem partilho.


E isso não é falta de amor.


É discernimento.


Ao mesmo tempo, eu sei que esta ideia de que “não posso contar antes do tempo” é uma programação.


Porque a verdade é que só existem brechas quando eu própria as abro.

E o simples facto de viver com medo dessa interferência já é, por si só, uma abertura.


Conceptualmente eu entendo isto.


Mas no sentir… ainda estou a aprender.


E talvez seja mesmo assim que acontece.


Primeiro percebemos com a mente.

Depois, aos poucos, o corpo e o sistema vão acompanhando.

 
 
 

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