Entre o Humano e o Divino
- Filipa Lele
- há 6 dias
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Há em mim um sentimento muito profundo de separação. Como se, de alguma forma, eu não fizesse verdadeiramente parte.
E talvez este seja um dos traumas mais primordiais da experiência humana.
A ideia de que, antes de chegarmos à Terra, existia unidade.
Tudo era uma só coisa.
Sem separação.
Sem individualidade.
E depois viemos para a Terra experimentar precisamente o contrário.
A experiência de sermos um indivíduo.
Um corpo.
Uma identidade separada do todo.
E mesmo antes de nascermos, voltamos a viver uma espécie de unidade dentro do corpo da mãe. Durante meses, não existe distinção. Para um bebé, ele e a mãe são a mesma coisa.
E de repente acontece o nascimento.
O bebé sai do corpo da mãe sem conseguir compreender o que está a acontecer.
Aquilo que era unidade transforma-se subitamente em separação.
E isso é profundamente assustador.
Talvez por isso passemos a vida inteira a tentar voltar a um lugar interno de pertencimento.
Principalmente quando, depois do nascimento, também não existiu capacidade emocional para nos acolher totalmente. Não por falta de amor necessariamente mas porque os nossos pais também carregavam as suas próprias dores, limitações e separações internas.
Então cresce dentro de muitas pessoas esta sensação de estar do lado de fora da vida.
Como se o amor estivesse fora.
O pertencimento estivesse fora.
Deus estivesse fora.
A segurança estivesse fora.
E nós aqui, separados.
Claro que isto não significa sentir dor absoluta o tempo inteiro. Mas existe muitas vezes uma sensação de fundo. Um afastamento subtil da vida, dos outros, do todo.
E durante muito tempo senti que só conseguia tocar novamente essa sensação de unidade em estados mais transcendentais. Como se para sentir pertença tivesse quase de “sair daqui”.
Como se existisse uma incompatibilidade entre ser humana e sentir união.
Mas hoje começo a sentir outra coisa.
Que talvez seja possível estar no céu e na Terra ao mesmo tempo.
Ser indivíduo sem perder a ligação ao todo.
Ter identidade sem perder a consciência da unidade.
Porque eu não acredito que viemos cá para deixar de ser humanos. Muito pelo contrário. Eu sinto profundamente que vim cá para viver esta experiência humana por inteiro. Para sentir o corpo, as relações, a individualidade, os desejos, os limites, a matéria.
Mas sem perder a ligação ao divino.
Sem sentir que Deus, o universo, o espírito ou o amor estão algures fora de mim.
Porque talvez nós não estejamos separados disso.
Talvez sejamos isso.
Centelhas da mesma consciência a viver experiências diferentes através de corpos diferentes.
E talvez o verdadeiro caminho não seja escolher entre o humano e o divino.
Mas aprender a sustentar os dois ao mesmo tempo.
Aprender a ser profundamente humana sem esquecer a unidade. E profundamente espiritual sem fugir da vida.



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