A minha forma de amar arte nunca foi através da técnica
- Filipa Lele
- 29 de jun.
- 3 min de leitura

Há coisas que parecem tão óbvias que passam décadas à frente dos nossos olhos sem nunca serem realmente vistas.
Acabei de perceber uma dessas coisas sobre mim.
Percebi que a forma mais genuína que tenho de me relacionar com a arte é através do sentir. Só isso. Não é através da técnica, da complexidade, da inovação ou do reconhecimento intelectual. É através daquilo que a arte me faz sentir no corpo.
E estou genuinamente a rir enquanto escrevo isto porque parece uma revelação gigante e, ao mesmo tempo, a coisa mais óbvia do mundo.
No outro dia estava a falar com uma pessoa sobre músicas dos Beatles e mencionei algumas das minhas favoritas. A resposta foi algo do género: “mas essas são algumas das músicas mais simples deles”. E eu percebi que isso não me importava minimamente. Porque eu não gosto dessas músicas por serem geniais tecnicamente ou revolucionárias. Gosto porque me fazem sentir coisas.
Posso ouvir Here Comes the Sun e é literalmente impossível para mim ficar deprimida naquele momento.
Nem é pela letra. É o ritmo, a sensação, a emoção, qualquer coisa que acontece dentro de mim.
E depois liguei isto aos livros.
Acabei há pouco tempo um livro da Socorro Acioli que li praticamente de uma assentada. Entrei completamente dentro da história. E percebi que isso me acontece muito com autores latino-americanos, especialmente os que têm esta componente de realismo mágico. Gabriel García Márquez, por exemplo, é um dos meus escritores favoritos. Eu entro no ritmo da narrativa e desapareço lá dentro.
Em contrapartida, tenho estado a tentar ler To the Lighthouse, da Virginia Woolf, e está a ser completamente diferente. O livro até já foi parcialmente engolido pelo mar numa distração minha e continua aqui, seco, meio torto, à espera que eu volte a pegá-lo.
Não é que não ache interessante. Acho. Mas não me puxa emocionalmente da mesma forma. Não existe aquele ímpeto. Aquela sensação de ser levada pela história. É uma relação mais intlectual.
E foi aí que tudo encaixou.
Eu escolho arte pela forma como me faz sentir.
Sempre.
A pintura também.
Eu adoro quadros gigantes porque me fazem sentir coisas. Adoro certas cores, certas texturas, certas obras que me atravessam emocionalmente. E percebi que nunca foi sobre técnica.
Ao mesmo tempo que enquanto artista tenho uma relação complicada com isso.
Ainda há partes de mim que pensam:
“Mas eu não tenho formação.”
“Não sei técnica.”
“Faço tudo intuitivamente.”
“Muitas vezes nem sei repetir aquilo que fiz.”
Só que, de repente, caiu-me uma ficha quase cómica:
Se eu, enquanto pessoa que consome arte, não valorizo a técnica acima de tudo… porque é que exijo isso de mim para validar a minha própria arte?
Porque é que eu haveria de medir o meu valor artístico por critérios que nem são aqueles através dos quais eu própria me emociono?
E isto abriu qualquer coisa muito grande dentro de mim.
Porque percebi que aquilo que me liga à arte nunca foi a perfeição. Foi o sentir.
Sempre foi.
E o mais engraçado no meio disto tudo é que no livro da Socorro Acioli que acabei de o Santo António aparece constantemente como figura central. E eu tenho uma oração pequenina que faço desde miúda sempre que perco alguma coisa:
“Santo António, luz, luz.”
Repito isto até encontrar.
E de repente tenho vontade de rir porque parece mesmo que encontrei qualquer coisa que estava debaixo do meu nariz há 39 anos.
A coisa mais importante de todas.
A minha forma verdadeira de amar arte.



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