A terra de ninguém
- Filipa Lele
- 25 de jul.
- 2 min de leitura

Há uma coisa em que pensava muito quando era miúda.
Sabes quando vais na estrada e aparece uma placa a dizer que uma localidade terminou?
E, alguns metros mais à frente, aparece outra placa a anunciar a próxima?
Eu ficava completamente fascinada com aquele espaço entre as duas.
Pensava:
“Então… ali ainda não é esta terra e já não é a outra.”
O que é aquele bocadinho de estrada?
De quem é?
Como se chama?
Na minha cabeça, era a terra de ninguém.
Lembro-me de olhar pela janela do carro à procura desse lugar invisível.
Como se aqueles poucos metros fossem um território especial.
Um sítio que não pertencia a lado nenhum.
Hoje acho graça a esta memória.
Mas também me faz pensar que talvez sempre tenha tido uma curiosidade muito grande pelos espaços entre as coisas.
Pelos momentos em que uma coisa já terminou, mas a seguinte ainda não começou.
A verdade é que a vida está cheia dessas terras de ninguém.
Há relações que já acabaram, mas ainda não percebemos quem somos sem elas.
Trabalhos que já deixámos, sem ainda sabermos qual será o próximo.
Versões nossas que já não existem, enquanto as novas ainda estão a nascer.
E esses lugares podem ser desconfortáveis.
Porque gostamos de saber onde estamos.
Gostamos de nomes.
De definições.
De placas.
Mas talvez exista qualquer coisa de muito bonito nesse espaço intermédio.
Talvez nem tudo precise de ter um nome imediatamente.
Talvez haja momentos em que a única coisa que precisamos é de habitar essa terra de ninguém por algum tempo.
Sem pressa de chegar à próxima placa.
Porque, às vezes, é precisamente ali que estamos a transformar-nos.
Mesmo que ainda não saibamos em quê.



Comentários