O que descobri sobre a minha forma de manifestar
- Filipa Lele
- 20 de ago.
- 2 min de leitura

Tenho sempre lugar para estacionar.
É uma piada entre as minhas amigas. Quando chegam depois de mim a um sítio, nem precisam de me procurar: veem o meu carro à porta e já sabem que estou lá dentro. Quando saímos juntas, já sabem que nos despedimos ali, porque o carro vai estar mesmo à porta. E até quando não vou de carro, porque apanhei boleia ou vim a pé, chegam e dizem: “olha, estava ali um lugar à porta, era o teu.”
Não é sorte. Percebi, com o tempo, que é sempre assim: penso a coisa uma vez, decido, e largo. Não fico ali a remoer se vai correr bem.
E percebi o oposto também. Quando é uma coisa que quero mesmo muito, sou capaz de ficar ali, a pensar nisso, e outra vez, e mais outra vez. E é sempre nessas que corre pior.
Levei anos a perceber que isto não é sorte com o estacionamento e falta de sorte com o resto. É a mesma coisa, em duas escalas diferentes.
O que fui percebendo
Que não preciso de saber o caminho todo. Preciso do próximo passo, e ajusto o resto a andar. Quando tento planear tudo antes de começar, nunca começo.
Que decido quase sempre em segundos. A dúvida só chega depois, quando começo a pensar demasiado sobre uma decisão que já estava tomada.
Que quando defino uma coisa ao detalhe, a data, a forma exacta, o como, ela custa a entrar. E quando defino só o que quero sentir, entra por caminhos que eu nunca tinha imaginado.
Que as minhas melhores decisões nunca vieram de perseguir. Vieram de reconhecer, na hora, o que estava mesmo à minha frente.
E que tenho dificuldade em largar quando quero muito uma coisa. É o único ponto onde ainda tropeço, sempre no mesmo sítio.
Não é técnica
Não decorei nenhuma destas coisas. Reparei nelas, no estacionamento, primeiro, porque era pequeno e engraçado e fácil de ver repetir-se. Só depois é que reconheci o mesmo padrão nas coisas grandes.
É por isso que digo às vezes que aprendi a manifestar a estacionar o carro. Não é força de expressão. Foi mesmo ali que vi o mecanismo pela primeira vez, antes de saber que era um mecanismo.
O estacionamento resolveu-se sozinho. As coisas grandes ainda estão a aprender a fazer o mesmo.



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