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O que descobri sobre a minha forma de manifestar

Tenho sempre lugar para estacionar.


É uma piada entre as minhas amigas. Quando chegam depois de mim a um sítio, nem precisam de me procurar: veem o meu carro à porta e já sabem que estou lá dentro. Quando saímos juntas, já sabem que nos despedimos ali, porque o carro vai estar mesmo à porta. E até quando não vou de carro, porque apanhei boleia ou vim a pé, chegam e dizem: “olha, estava ali um lugar à porta, era o teu.”


Não é sorte. Percebi, com o tempo, que é sempre assim: penso a coisa uma vez, decido, e largo. Não fico ali a remoer se vai correr bem.

E percebi o oposto também. Quando é uma coisa que quero mesmo muito, sou capaz de ficar ali, a pensar nisso, e outra vez, e mais outra vez. E é sempre nessas que corre pior.


Levei anos a perceber que isto não é sorte com o estacionamento e falta de sorte com o resto. É a mesma coisa, em duas escalas diferentes.


O que fui percebendo


Que não preciso de saber o caminho todo. Preciso do próximo passo, e ajusto o resto a andar. Quando tento planear tudo antes de começar, nunca começo.


Que decido quase sempre em segundos. A dúvida só chega depois, quando começo a pensar demasiado sobre uma decisão que já estava tomada.


Que quando defino uma coisa ao detalhe, a data, a forma exacta, o como, ela custa a entrar. E quando defino só o que quero sentir, entra por caminhos que eu nunca tinha imaginado.

Que as minhas melhores decisões nunca vieram de perseguir. Vieram de reconhecer, na hora, o que estava mesmo à minha frente.

E que tenho dificuldade em largar quando quero muito uma coisa. É o único ponto onde ainda tropeço, sempre no mesmo sítio.


Não é técnica


Não decorei nenhuma destas coisas. Reparei nelas, no estacionamento, primeiro, porque era pequeno e engraçado e fácil de ver repetir-se. Só depois é que reconheci o mesmo padrão nas coisas grandes.

É por isso que digo às vezes que aprendi a manifestar a estacionar o carro. Não é força de expressão. Foi mesmo ali que vi o mecanismo pela primeira vez, antes de saber que era um mecanismo.

O estacionamento resolveu-se sozinho. As coisas grandes ainda estão a aprender a fazer o mesmo.

 
 
 

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