Afinal, colocar uma intenção não é controlar
- Filipa Lele
- há 4 horas
- 3 min de leitura

Sempre tive muita dificuldade em colocar uma intenção antes de um trabalho terapêutico.
Em retiros, workshops ou sessões, muitas vezes era pedido que definíssemos uma intenção no início.
Às vezes fazia-o.
Outras vezes não.
E, quando o fazia, era quase por obrigação.
Porque, para mim, colocar uma intenção parecia limitador.
Pensava: “A minha mente pode querer uma coisa, mas o universo pode ter algo muito mais extraordinário para mim. Se eu definir uma intenção, estou a limitar aquilo que pode acontecer.”
Durante muitos anos vi a intenção como uma forma de controlo.
Até que, recentemente, uma pessoa que me procurou para uma sessão trouxe-me uma perspetiva completamente diferente.
Disse-me que estava a viver um momento de confusão e que ainda não sabia se fazia uma Constelação Sistémica ou uma Leitura da Aura.
Depois acrescentou:
“Acho que prefiro uma Leitura da Aura, porque tenho estas questões, mas quero que venha aquilo que for mais importante.”
Enquanto lia a mensagem, reconheci-me completamente.
Quantas vezes eu própria pensei exatamente assim?
“Tenho este tema, mas… se houver algo mais importante, que venha isso.”
E atenção.
Não acho que isto esteja errado.
O que percebi é que existem motivações muito diferentes por trás da mesma escolha.
Foi aí que caiu uma consciência enorme.
Durante muito tempo, quando me recusava a colocar uma intenção, eu achava que estava a confiar no universo.
Mas, na verdade, muitas vezes estava apenas a abdicar do meu poder pessoal.
Era como se dissesse:
“Decide tu por mim.”
E isso é muito diferente de escolher conscientemente abrir espaço ao inesperado.
Quando existe um tema que nos está a ocupar há dias, meses ou até anos, quando sabemos exatamente aquilo que queremos compreender ou transformar, escolher não olhar para isso pode não ser entrega.
Pode ser uma forma de não assumir as rédeas da própria experiência.
Hoje vejo que colocar uma intenção não é limitar o universo.
É assumir responsabilidade pela experiência que estou prestes a viver.
É dizer:
“É aqui que quero olhar.”
E isso é profundamente diferente de tentar controlar o resultado.
Porque eu posso colocar uma intenção muito concreta.
Ou posso colocar uma intenção completamente aberta.
Posso dizer:
“Quero compreender esta relação.”
Ou posso dizer:
“Estou aberta a que esta sessão me mostre aquilo que é mais importante para mim neste momento.”
As duas são intenções.
As duas são válidas.
A diferença não está na intenção.
Está na motivação.
Estou a escolher?
Ou estou a abdicar de escolher?
Hoje percebo que até a intenção mais aberta pode ser uma expressão de poder pessoal.
Porque fui eu que a escolhi.
Porque fui eu que disse:
“Hoje quero entregar-me ao que surgir.”
Isso é muito diferente de simplesmente não decidir nada porque acredito que o universo saberá melhor do que eu.
Claro que a minha consciência é limitada.
Claro que existem coisas que eu ainda não vejo.
Mas também sou eu que estou a viver esta experiência.
Sou eu que sinto.
Sou eu que faço perguntas.
Sou eu que quero compreender.
Tenho todo o direito de pedir ajuda para um tema específico.
E também tenho todo o direito de dizer que, hoje, prefiro manter a intenção aberta.
As duas coisas podem nascer exatamente do mesmo lugar:
Do poder pessoal.
Percebi, finalmente, que colocar uma intenção não é agarrar as rédeas com força.
É reconhecer que elas estão nas minhas mãos.
Depois posso puxá-las.
Posso afrouxá-las.
Posso até escolher entregá-las por um momento.
Mas sou eu que faço essa escolha.
E isso muda tudo.
Porque é muito diferente entregar conscientemente as rédeas…
…ou fingir que elas nunca estiveram nas nossas mãos.



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