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Caminhar com o Medo

Sempre tive muitos medos.


Lembro-me, por exemplo, de estar no 11º e 12º ano a pensar no que iria fazer na faculdade. Psicologia era uma possibilidade real para mim. Mas, quando cheguei ao 12º ano, percebi que, para seguir esse caminho, teria de frequentar uma disciplina com outra turma que não a minha.


E, nesse momento, descartei completamente essa hipótese.


O medo do desconhecido, das outras pessoas, do que era estranho, foi maior. E, por isso, tirei essa opção de cima da mesa.


Hoje olho para isso com tranquilidade. Percebo porque fez (ou não fez) parte do meu percurso e não tenho arrependimentos. Mas reconheço que foi um momento em que o medo me paralisou.


E, ao mesmo tempo, houve momentos completamente diferentes.


Quando fui fazer Erasmus, também estava cheia de medo.


Era, no fundo, o mesmo tipo de medo (o desconhecido, o novo) mas em escala ainda maior. Não era apenas uma turma diferente. Era um país inteiro. Pessoas, língua, universidade, tudo desconhecido. Ia sozinha, sem conhecer absolutamente ninguém.


E, mesmo assim, fui.


Lembro-me bem do trabalho interno que fiz nos meses antes de ir. Conversas comigo mesma, quase como um compromisso: não vais ficar fechada, vais falar com pessoas, vais convidar, vais participar.


E foi exatamente isso que fiz.


Esses seis meses foram dos mais incríveis da minha vida. Trouxeram uma transformação interna enorme. Foi um ponto de viragem, de alguém mais encolhida para alguém que começou a ocupar mais espaço.


Não que o caminho tenha terminado aí. Continuei a expandir-me com o tempo e com outras experiências. Mas esse momento marcou uma mudança profunda.


E isto mostra-me algo importante: o medo nem sempre decide.


Houve momentos em que me paralisou.

E houve muitos outros em que fui com ele.


Na verdade, olhando para trás, consigo lembrar-me de mais vezes em que fui com medo do que das vezes em que não fui.


Mas as vezes em que não fui também foram importantes. Mostraram-me o que podia perder ao ficar parada.


E isso ajuda-me a olhar para o medo de outra forma.


Fez com que a relação com o medo mudasse. Deixei de lutar contra ele.

Deixei de o ver como um problema ou como algo que precisava de eliminar.


Percebo que faz parte.


O medo é uma emoção como qualquer outra. Surge, mostra-se, tem o seu papel. Muitas vezes, é apenas um sinal de alerta, algo que pede atenção, cuidado, presença.


E eu posso escutá-lo… sem lhe obedecer automaticamente.


Porque o medo não é um guia, nem uma regra.


É um sinal.


E eu escolho o que fazer com ele.


Não vou dizer que adoro quando ele aparece, não é isso. Talvez um dia chegue lá, talvez não. Mas já não estou em guerra com ele.


Estamos lado a lado, como parceiros.


E, mesmo quando ele aparece… eu continuo a caminhar.

 
 
 

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