Entre Reter e Fluir: Encontrar Equilíbrio na Energia de Receber e Dar
- Filipa Lele
- 6 de mai.
- 3 min de leitura

As questões de dinheiro têm estado muito presentes na minha vida. O meu trabalho ainda não gera os rendimentos que eu gostaria, enquanto as despesas aumentaram, como tem acontecido com toda a gente. Há também questões pendentes e tudo isso faz com que o dinheiro seja um tema constante.
Tenho vindo a perceber que existe em mim uma tendência para acumular. Quando olho para o dinheiro, sinto que ele representa outras áreas da minha vida onde acredito que preciso guardar, porque posso vir a não ter. Mesmo que racionalmente eu não acredite totalmente nisso, é como se houvesse uma programação interna a dizer: “tens de acumular, porque pode faltar”.
Isto torna-se limitador. Em vez de ver o dinheiro como algo que flui, que expande e que pode trazer mais possibilidades, acabo por o encarar como algo que precisa de ser retido. E isso cria uma sensação de restrição, como se estivesse a bloquear a energia. Percebo que este padrão não se aplica só ao dinheiro, mas também a outras áreas da minha vida.
Sinto que parte disto vem da minha ancestralidade. Por um lado, herdei a importância da segurança, da proteção e da gestão do dinheiro. Por outro, também herdei o impulso para usufruir, gastar e expandir. O problema é que estes dois lados não estão em equilíbrio, competem entre si, e isso faz com que a minha vida oscile entre extremos.
Durante muitos anos, sobretudo quando era mais nova, estive mais no polo da acumulação. Depois passei para o outro extremo, de expansão e gasto, onde o foco era crescer e usufruir. Agora sinto que regressei novamente a um ponto mais próximo da acumulação.
Parece-me que a vida está a pedir-me para encontrar equilíbrio entre estes dois polos. Acredito que os recursos são abundantes, que o universo é infinito e que há o suficiente para todos, incluindo para mim. Mas também reconheço que expandir não deve significar desperdiçar. Em alguns momentos, a minha expansão veio acompanhada de desperdício.
Então a questão torna-se: como encontrar um equilíbrio entre não viver em escassez nem em excesso? Como não fechar, mas também não esbanjar?
Sinto que há aqui uma energia estagnada pronta para ser libertada e que estes padrões estão prontos para serem transformados. Talvez até com o apoio da minha ancestralidade, não como algo obrigatório, mas como algo possível e desejado.
Ter consciência disto já é muito importante.
No fundo, trata-se de honrar. Honrar o dinheiro e honrar também tudo aquilo que chega à minha vida. Honrar o ciclo: receber, utilizar, transformar e partilhar, tal como acontece na natureza.
Imagino uma árvore que dá maçãs. Posso recebê-las com medo, pensando que é tudo o que vou ter e que preciso guardar tudo. Ou posso recebê-las com gratidão, reconhecendo o milagre de plantar uma semente e ver surgir frutos.
Depois vem a questão do que fazer com essas maçãs. Posso comê-las, partilhá-las, conservá-las, transformá-las em compotas ou plantar novas árvores. Há muitas possibilidades. Isso é não desperdiçar, é usar, transformar e dar continuidade.
Mas também aqui pode haver desequilíbrio: guardar tudo para mim até se estragar ou dar tudo sem ficar com nada. O verdadeiro equilíbrio está entre guardar e partilhar.
É sobre como recebo, como sustento e como distribuo aquilo que chega à minha vida.
E, embora esta reflexão tenha começado com o dinheiro, sinto que na verdade é muito maior do que isso.



Comentários