Largar o Caminho para Encontrar o Fluxo
- Filipa Lele
- 16 de mai.
- 3 min de leitura

Estava a fazer um exercício meditativo e, a certa altura, vi-me a carregar um peso do lado esquerdo. Era pesado, muito presente e não o conseguia largar.
Decidi então fazer um exercício sistémico: uma triangulação entre mim, esse peso e a força curadora (uma das três forças que o Bert Hellinger explica). E, nesse processo, percebi que aquele peso estava ligado a “imprints” energéticos de crianças não nascidas no meu sistema. Fui libertando, juntando-me a essa força curadora, e senti mesmo que algo foi sendo solto.
Depois voltei ao exercício inicial.
E voltei a ver-me ali, ainda com o peso, mas agora com a possibilidade de escolha.
Vi uma corrente enorme presa ao meu ombro esquerdo. E, desta vez, escolhi largá-la.
Mas, no momento em que a largo, algo inesperado acontece: fico presa ao chão.
Eu queria muito andar em frente, mas era como se os meus pés estivessem colados ao chão.
E então percebi: eu estava a fazer uma força enorme para ir numa direção que achava que era “para a frente”.
Mas o chão também se estava a mover.
Era como se estivesse num tapete rolante a andar ao contrário. E eu, sem perceber isso, estava a fazer um esforço gigantesco para “avançar” com a sensação de que não saía do mesmo sítio.
Decido parar de resistir.
Deixar ir.
Virar a direção.
E, nesse momento, percebo que “em frente” afinal era o outro lado.
Começo a ir nessa direção, não com esforço com fluidez. E, entretanto, o próprio “tapete” dá a volta e começa a mover-se na direção que eu inicialmente queria.
Mas agora já não há esforço.
Não preciso de forçar o movimento.
Há uma sensação clara de fluxo, de ir com a vida, em vez de contra ela.
E isto trouxe-me uma compreensão muito forte: ir com o fluxo nem sempre é ir na direção que eu acho.
Às vezes parece um desvio, quase como dar um passo atrás, mas não é.
É entrar no fluxo.
E esse fluxo pode levar-me por caminhos que eu ainda não vejo, para depois me levar exatamente ao sítio onde eu sentia que queria ir.
Por isso é que o fluxo é o oposto do controlo.
Mas, naquele momento, isso também trouxe angústia.
Uma sensação de “porque é que não estou a conseguir ir para onde quero?”, “o que é que se está a passar?”, “será que sou eu?”
Houve dúvida e um questionar da minha própria capacidade de sentir (porque eu sentia genuinamente que o caminho era naquela direção).
E, mesmo assim, tive de largar.
Largar a direção, largar o controlo, largar o “como”.
E permitir-me ir para o outro lado.
E foi aí que o próprio fluxo da vida me trouxe de volta, de volta à direção que eu já sentia, mas de uma forma alinhada, sem esforço.
E isto trouxe-me outra clareza: eu até posso sentir para onde quero ir.
Mas o “como” não me pertence.
Nem o timing, nem o caminho exato, nem a velocidade.
Isso é da vida.
Isso é do universo.
Se eu tento definir tudo isso, entro em resistência.
Se eu entro no fluxo, posso até não perceber imediatamente o caminho mas ele revela-se.
E, muitas vezes, traz coisas que eu nem imaginava.
Tudo isto começou com algo muito simples.
O convite de um exercício que era “apenas”ficar com um sentimento presente.
E eu acordei com uma sensação de saudade.
Mas não era uma saudade concreta.
Eram saudades de algo que eu não vivi.
Não conseguia nomear. Nem aproximar. Nem sequer imaginar claramente.
Não era como aquelas situações em que pensamos “e se a vida tivesse sido diferente…”.
Era mais abstrato do que isso.
Era apenas uma sensação.
Uma saudade… de algo que nunca aconteceu.
E foi a partir desse lugar, sem nome, sem forma, que tudo isto se abriu e que mais uma camada caiu.



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