Nem todo luto parte de uma morte
- Filipa Lele
- 1 de mar.
- 2 min de leitura
Nem todo luto nasce de uma morte.

Às vezes, precisamos de fazer o luto de projetos que não aconteceram, de amizades que se perderam, de sonhos que foram sonhados… e não vividos. Muitas vezes, o luto é das nossas expectativas.
Na verdade, a base de quase todos os lutos é esta:
fazer o luto daquilo que imaginámos para a nossa vida e que não se concretizou. Mesmo quando alguém falece, o luto não é apenas pela pessoa, mas também por tudo o que ainda sonhávamos viver com ela.
É o luto daquilo que tínhamos — ou pensávamos vir a ter — na nossa vida, e que deixou de existir.
E, por vezes, fazer o luto de uma pessoa que ainda está viva pode ser ainda mais difícil do que fazer o luto de alguém que já partiu.
Digo-te isto apenas para te lembrar de uma coisa essencial:
dá-te tempo.
Não te cobres.
Houve um sonho que não aconteceu e achas que tens de seguir em frente rapidamente porque “nunca chegaste a ter aquilo”. Não. Dá-te tempo. Faz o luto.
Houve um conflito. Alguém saiu da tua vida. E achas que tens de ser maior do que isso, que essa pessoa não merece que percas tempo a sentir o que sentes. Talvez não mereça — mas tu mereces.
Dá-te tempo.
Permite-te sentir tudo o que precisa de ser sentido. Permite-te fazer o processo. Permite-te viver o luto para te libertares da dor.
Porque, no fundo, o luto é isto:
é sentir.
É sentir até ao fim.
Até à última gota.
Até ao dia em que ficas mais leve.
Isso não quer dizer que, no futuro, o tema não possa voltar a ser ativado. Não quer dizer que a ferida nunca mais se faça sentir. Mas será diferente. Virá de um lugar mais consciente, de alguém que terminou o processo de luto e está apenas a revisitar partes da sua história.
Por isso, mais uma vez:
dá-te tempo.
E não te cobres.



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