Não estou à procura de autorização. Estou a aprender a habitá-la.
- Filipa Lele
- 25 de jun.
- 3 min de leitura

Se há coisa que está a demorar na minha vida é eu levar a minha arte a sério, eu percebo que muito disto vem de programações da sociedade.
Há uma ideia muito enraizada de que a arte é algo infantil, associado a crianças, a brincadeiras, a algo que depois se perde quando se cresce. Ou então há a ideia de que existem alguns adultos “diferentes”, especiais, que conseguem manter isso e que esses sim são os verdadeiros artistas. E muitas vezes só há validação quando começam a ganhar muito dinheiro com isso.
Por isso, para a sociedade, torna-se estranho alguém levar a sua arte a sério sem esse reconhecimento externo. Como é que alguém é artista se não fizer dinheiro suficiente com isso?
E eu acho que tenho estado a lidar com tudo isso.
Eu nunca fui aquela criança extremamente artística. Nunca tive uma continuidade de expressão plástica. Foi só na pandemia que comecei a pintar, muito por vontade de desenvolver a minha criatividade, como uma coisa minha, para mim. Era um espaço de exploração interna.
E na altura era mesmo isso: uma forma de perceber o que é a criatividade, de a estimular, com a ideia de que isso depois se expandiria para outras áreas da minha vida.
Mas agora essa coisa que começou quase como uma brincadeira de criança tornou-se algo mais sério.
E eu vejo muito dessas questões da sociedade em mim também. Só que na verdade, a pintura, para mim, cada vez mais não é um hobby. É aquilo com que mais me identifico, aquilo que mais me preenche, aquilo que mais me provoca borboletas na barriga.
E ao mesmo tempo tem sido difícil assumir isso.
Porque dentro de mim existem exatamente as mesmas vozes: “mas isto não gera dinheiro suficiente”, “mas não tens formação artística”, “mas como é que te podes considerar artista?”
E depois há outra parte que já sabe: eu já me considero artista. Já levo isto a sério. Tenho clientes, encomendas, pessoas que não só compram o que eu pinto para mim, mas que querem que eu pinte para elas, com a energia delas. Isto já existe. Já está fora. Já é real. E eu levo isto muito a sério.
Só que ainda há muitos sítios internos onde isto não está totalmente assumido como sendo sério e real e com valor.
Neste momento, sinto que ainda estou a alinhar o valor de fora para dentro. Ou seja, há pessoas que compram, que valorizam, e isso ajuda a espelhar valor para dentro.
Mas a intenção é que isso se inverta: que o valor venha primeiro de dentro, independentemente de qualquer validação externa.
É um circuito que está a ser ativado, ora fora, ora dentro, e está tudo a acontecer ao mesmo tempo.
E talvez a conclusão mais honesta de tudo isto seja simples e desconfortável ao mesmo tempo: eu já estou a viver como artista, mas ainda estou a aprender a acreditar nisso por dentro.
Não é sobre esperar que essa crença se torne total para depois avançar, mas exatamente o contrário, continuar a avançar até que a crença deixe de ser uma ideia e passe a ser um lugar interno estável.
No fundo, não estou à procura de autorização. Estou a aprender a habitá-la.
Em que área da tua vida é que ainda estás à espera que alguém que te “autorize” a ser?



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