O descanso não é um prémio
- Filipa Lele
- 1 de jun.
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Há muitas pessoas que sentem culpa quando finalmente param.
Como se descansar tivesse de ser merecido.
Como se existir sem produzir fosse uma espécie de falha.
E isso não acontece por acaso.
Fomos ensinadas, de forma muito subtil, que o nosso valor está ligado àquilo que fazemos.
Ao quanto produzimos.
Ao quanto conseguimos sustentar.
Ao quanto somos úteis.
Então quando paramos, o sistema entra em alerta.
Surge inquietação.
Culpa.
Ansiedade.
Uma sensação estranha de estar a “perder tempo”.
Como se uma parte de nós perguntasse:
“Se eu não estiver a fazer nada… quem é que eu sou?”
Eu tenho uma relação um bocadinho diferente com isto.
Também cresci com a ideia de que o meu valor dependia do que produzia, mas mais dos resultados do que da ideia de estar constantemente ocupada.
E desde muito cedo percebi outra coisa.
Vi muitas mulheres à minha volta que nunca paravam.
Sempre a fazer.
Sempre a cuidar.
Sempre a sustentar tudo e todos.
E muitas acabaram doentes.
Lembro-me de pensar nisso muito nova.
Eu não quero viver assim.
Por isso, para mim, o descanso nunca foi um prémio pelo trabalho bem feito.
É uma condição para continuar viva, inteira e presente.
Descansar não devia ser o que sobra depois de tudo estar feito.
Porque a verdade é que nunca fica tudo feito.
Talvez maturidade seja perceber que o corpo não foi feito para viver permanentemente em esforço.
E talvez a pergunta mais importante não seja
“porque é que me sinto culpada quando paro?”
Talvez seja
“quem me ensinou que eu só tenho valor quando estou a produzir?”



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