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O descanso não é um prémio

Há muitas pessoas que sentem culpa quando finalmente param.


Como se descansar tivesse de ser merecido.

Como se existir sem produzir fosse uma espécie de falha.


E isso não acontece por acaso.


Fomos ensinadas, de forma muito subtil, que o nosso valor está ligado àquilo que fazemos.

Ao quanto produzimos.

Ao quanto conseguimos sustentar.

Ao quanto somos úteis.


Então quando paramos, o sistema entra em alerta.


Surge inquietação.

Culpa.

Ansiedade.

Uma sensação estranha de estar a “perder tempo”.


Como se uma parte de nós perguntasse:

“Se eu não estiver a fazer nada… quem é que eu sou?”


Eu tenho uma relação um bocadinho diferente com isto.


Também cresci com a ideia de que o meu valor dependia do que produzia, mas mais dos resultados do que da ideia de estar constantemente ocupada.


E desde muito cedo percebi outra coisa.


Vi muitas mulheres à minha volta que nunca paravam.

Sempre a fazer.

Sempre a cuidar.

Sempre a sustentar tudo e todos.


E muitas acabaram doentes.


Lembro-me de pensar nisso muito nova.

Eu não quero viver assim.


Por isso, para mim, o descanso nunca foi um prémio pelo trabalho bem feito.


É uma condição para continuar viva, inteira e presente.


Descansar não devia ser o que sobra depois de tudo estar feito.

Porque a verdade é que nunca fica tudo feito.


Talvez maturidade seja perceber que o corpo não foi feito para viver permanentemente em esforço.


E talvez a pergunta mais importante não seja

“porque é que me sinto culpada quando paro?”


Talvez seja

“quem me ensinou que eu só tenho valor quando estou a produzir?”

 
 
 

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