Porque é que o meu ego se tornou o meu melhor amigo
- Filipa Lele
- 1 de jul.
- 3 min de leitura

Hoje posso dizer que sou profundamente apaixonada pelo meu ego.
E não, não é do lugar do ego. É de um lugar de amor.
Aquilo a que chamamos ego é uma parte de mim, como todas as outras. E só por isso já merece ter um lugar.
Acho que a vida, e sobreviver à infância, com tudo o que isso implica, ensinou-me que o ego tinha de ser o comandante do barco. Não porque a minha infância tenha sido particularmente má, mas porque, como todas as infâncias, teve as suas questões, os seus desafios, as suas aprendizagens.
E o ego fez aquilo para que foi criado: proteger.
Foi ele que foi à frente. Foi ele que salvaguardou. Foi ele que garantiu que eu continuava aqui. E fez muito bem o seu trabalho.
Mas sendo ego, com a sua principal função sendo a sobrevivência, ele não está propriamente preocupado com que a pessoa viva e usufrua da vida. Está preocupado em garantir que ela se mantém viva.
Por isso, não gosta muito de mudanças. Gosta que tudo se mantenha exatamente igual. Porque aquilo que é igual ele já conhece. E aquilo que já conhece sabe que funciona, porque até aqui funcionou.
Ainda que a vida não seja bem assim.
Na verdade, muitas vezes, a estagnação é uma forma de morte. Mas o ego não tem essa consciência. Nem precisa de ter. Não é essa a sua função.
A grande mudança para mim foi colocá-lo no lugar dele.
Dar-lhe, talvez, o lugar de copiloto no barco.
Mas não o lugar de comandante.
E curiosamente acho que ele adora esse lugar. Porque é o lugar dele.
Ali pode descansar. Não precisa de estar constantemente alerta. O sistema de interpretação não precisa de estar sempre ligado. Eu não tenho de estar sempre a compreender tudo, a controlar tudo, a antecipar tudo, a fazer tudo sozinha.
Não tenho.
E por isso toda eu, incluindo o ego, adora isso.
Porque finalmente posso, como um todo, assumir as rédeas do barco. Assumir o leme. Assumir a direção.
Ver a vida.
Viver a vida.
E não apenas sobreviver à vida.
Mas isso também só é possível porque o ego continua ali.
Porque enquanto somos humanos e estamos nesta dimensão, é impossível não ter ego.
Na verdade, só vejo duas formas de isso acontecer: morrer (e aí o ego morre também) ou desenvolver uma doença mental tão profunda que provoque uma dissociação extrema. Mas mesmo aí não desaparece apenas o ego; fragmenta-se toda a pessoa.
Porque é impossível ser humano sem ego.
O ego é aquilo que faz com que eu não me atire da ponta na primeira contrariedade. É aquilo que garante a minha continuidade. A minha permanência aqui.
Então, como não amar isto?
Como não amar uma parte de mim que foi criada única e exclusivamente para me proteger?
Uma parte cuja função é garantir que eu continuo aqui a cumprir aquilo que a minha alma veio fazer.
Porque sim, acredito que a minha alma escolheu vir à Terra.
Escolheu ser pessoa.
Escolheu ser esta pessoa em particular.
E escolheu ter coisas para fazer.
Caso contrário, não teria vindo.
E o ego garante precisamente isso: que ela continua cá a fazer essas coisas e não volta para casa antes do tempo.
Porque imagino que a casa seja boa.
Muito boa, até.
Por isso amo profundamente o meu ego.
Não do lugar do ego.
Mas de um lugar de amor verdadeiro.
Um amor que reconhece o seu papel, o seu trabalho e a sua importância.
E que, precisamente por reconhecer tudo isso, consegue colocá-lo no lugar certo.
Ao meu lado.
Não à frente.
Enquanto eu tomo as rédeas do barco.
E vou viver.



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