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Quem sou eu para além daquilo com que me identifico?

Há tantas coisas que trazemos agarradas à nossa identidade que, na verdade, não são identidade. Nós é que fazemos delas identidade mas são apenas coisas que pesam e atrapalham aquilo que somos na essência.


Por exemplo, emoções.


Não é “eu sou medrosa”.

Não é “eu sou agressiva”.

Não é “eu sou desconfiada”.


É “eu estou com medo”.

“Eu estou agressiva.”

“Eu estou desconfiada.”


Parece uma diferença pequena, mas muda tudo.


Porque nós podemos sentir medo, ter momentos de agressividade, desconfiar, sentir ciúme, insegurança ou tristeza sem que isso defina quem somos.


Só se torna identidade quando acoplamos essas emoções à ideia fixa de “eu sou assim”.


Caso contrário, são estados. Emoções passageiras.

Mesmo que apareçam muitas vezes.


E se aparecem repetidamente, provavelmente há algo mais profundo por baixo delas a querer mostrar-se. Algo que ainda não foi visto, sentido ou integrado.


Eu não acredito que as pessoas sejam inerentemente agressivas. Acredito que se tornam agressivas através de traumas, dor, sobrevivência, ausência de segurança emocional, histórias não resolvidas.


A agressividade é muitas vezes apenas a expressão visível de algo muito mais profundo.


E quando aquilo que está por baixo é finalmente visto, trabalhado, acolhido e colocado no seu lugar, a agressividade deixa de ser tão necessária.


Pode continuar a aparecer momentaneamente, porque somos humanos, mas deixa de ser uma identidade.


A pessoa pode sentir agressividade sem ser uma pessoa agressiva.

Pode sentir medo sem ser medrosa.


E isto acontece também com a nossa história.


Muitas vezes acoplamos os nossos traumas à nossa identidade.

A mãe que não amou como precisávamos.

O pai ausente.

A rejeição.

O abandono.

As dores da infância.


E começamos a carregar essas histórias como se fossem quem somos.


Mas uma história não é identidade.


Uma história pode fazer parte de nós sem precisar de nos definir.


Há uma diferença entre honrar aquilo que vivemos e viver eternamente identificadas com isso.


Podemos reconhecer:

“Sim, isto aconteceu.”

“Sim, isto marcou-me.”

“Sim, isto faz parte da minha experiência.”


Sem continuar a alimentar essa narrativa como o centro da nossa identidade.


Porque então surge outra pergunta:


Se eu não sou as minhas emoções, os meus medos, os meus traumas, os meus desejos de validação, o meu estatuto, o dinheiro, as máscaras que construí… então quem sou eu?


E talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro encontro connosco.


Porque muitas das identidades que vemos à nossa volta são construídas em torno de compensações.

Status. Controlo. Necessidade de mostrar. Necessidade de provar.


Mas o que é que está por baixo disso tudo?

Do que é que estamos a fugir?

O que é que estamos a tentar compensar?


Se tudo isso pode ser retirado e ainda assim continuarmos a existir, então talvez nunca tenha sido a nossa verdadeira identidade.


Talvez fossem apenas camadas.


Histórias.

Estratégias.

Proteções.

Sobrevivência.


E então sobra a pergunta mais importante de todas:


Quem sou eu quando deixo de me identificar com tudo aquilo que aprendi a ser?

 
 
 

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