Ver sem Carregar: Integrar Quem Vê e Quem É Visto
- Filipa Lele
- 8 de mai.
- 3 min de leitura

Tenho vindo a perceber uma coisa importante: para mim, ver pode ser sentido como uma ameaça.
E não estou a falar de ver espíritos ou algo desse género, é mais sobre ver o outro, perceber coisas sobre o outro. Porque isso pode implicar descobrir segredos que depois sinto que tenho de guardar, carregar pesos que não são só meus. Pode implicar também ver realidades menos bonitas e não saber como sustentá-las.
Então, o ato de ver torna-se uma ameaça à minha energia.
Sinto que isto vem de um lugar de criança dentro de mim. Porque, quando me coloco no lugar de adulta, eu sei que tenho capacidade de escolha sobre o que faço com aquilo que vejo. Mas, no meu corpo, ainda existe esta sensação de ameaça, como se ver implicasse ter de sustentar coisas do outro dentro de mim. E, de alguma forma, isso também fala sobre mim, porque se está em mim, é porque me toca.
Este é um tema muito central na minha vida.
E percebo agora que isto surgiu porque eu queria entender porque é que não me sinto vista. E começo a perceber: eu não me sinto vista porque, de certa forma, eu não vejo (eu não me vejo).
Sinto que isto está profundamente ligado à minha identidade. Como se “não ver” ou “ter medo de ver” fizesse parte de quem eu sou. Ao mesmo tempo, sinto que está na altura de deixar de ser assim. Medos, emoções, sensações não são identidade, são algo de passagem.
Depois fiz um pequeno exercício interno, como uma constelação: eu face ao meu eu quer vê e ao meu eu que é visto.
Senti-me como num jogo de ping-pong entre estas partes, ainda separadas. Até um momento de integração: eu só posso ver se for vista e só posso ser vista se vir.
Porque, no fundo, sou eu que me vejo a mim própria.
Isto abriu espaço para me me ver como um ser multidimensional e, ao mesmo tempo, profundamente humano e terreno. Sou mulher, sou humana, gosto do prazer, da vida na Terra, das coisas simples e mundanas. E, simultaneamente, sinto-me muito maior do que isso.
Tudo isto existe em mim.
Mas esta consciência ainda me traz conflito: há uma aflição ao sentir-me multidimensional e uma angústia ao sentir-me tão humana.
Quando mergulho nisso, percebo: há um medo de que, ao assumir-me como multidimensional, eu deixe de ser terrena.
E, por outro lado, há um medo de que, ao assumir-me como terrena, eu deixe de ser multidimensional.
Mesmo que racionalmente eu já não veja isso como separado, no meu corpo ainda existe essa divisão.
E aí pergunto-me: como libertar isto do corpo?
A resposta que surge é simples, mas exigente: passo a passo, através de hábitos.
Não é sobre ir para extremos, nem para cima nem para baixo, é caminhar com consistência. A integração já está disponível, ela já existe, mas ainda não está assumida e sustentada no dia-a-dia.
E aqui surge outra perceção importante:
eu tenho resistência aos hábitos. Eles ativam em mim uma sensação de prisão, de limite, de obrigação. Por isso, durante muito tempo, afastei-me deles.
Mas também vejo que estou a tentar seguir hábitos de outras pessoas, em vez de encontrar os meus.
E mais ainda: não estou sequer a reconhecer os hábitos que já existem em mim.
O verdadeiro ponto de viragem hoje está aqui.
Os meus hábitos precisam de ser meus, alinhados com quem eu sou.
E surge então algo muito claro: o que me equilibra é quando consigo estar “no céu e na terra ao mesmo tempo”. Não como algo esporádico mas como um estado cultivado através de hábitos.
Quando imagino essa versão de mim, com esses hábitos enraizados, sinto algo muito diferente: respiro melhor, sinto mais presença, há uma mistura de profundidade e leveza.
Não há prisão, não há restrição.
Há segurança.
E essa segurança permite expansão, uma expansão que acontece de dentro para fora, como um mundo interior vasto e vivo.



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